Reflexo, de Tom Dunes

 Reflexo

I

Às margens do velho rio

Debrucei-me

Lenda, fazenda, Canabrava

na correnteza das memórias.

O ardido sol, o cavalo n'água, as carroças abarrotadas resistindo ao tempo,

o paquete,  o salto acrobático dos meninos, a palha da cebola flutuando na superfície...

Tudo era cais naquele momento

E eu pensamento e história.

Poesia de Lourdes

Páginas de Tercina.

II

Nas águas do velho rio

Efervesci  

Ebulindo as cores do meu corpo, papel e engenho d’arte

Me transformei nas histórias de Phalempim, virei machê, andaime

Fiz-me todo carnaval,

Agigantei-me.

Virei Zé Pereira e Vitalina,

Um frevo à beira d’água

E Mestre Lau frente à Orquestra

Me desdobrando em dobrados, troça, mela-mela, multidão

Maria Catarina e Pedro Rocha em condução apaixonada, soltos na virada  

Me coroei Momo da festa, virei João de Pio, majestosamente para o povo

Me vesti de irreverência e virei Clovis de Neta no Desfile das Virgens,

Virei Ivete, Bin Ladem, Paulo Lampião

Me transformei em fantasia...

Modelos de Michele, figurinos de Miriam

No requinte e bom gosto de Christiane Lira, de Lívia, brilhos e blocos bordados à mão

Virei máscara, adereços de Beltina, Betina e os Bailes do Oásis, a Festa do Havaí e o Porto da Velha Barra,

Depois fui banho de bica no cais da Pakera, da Folia

Molhado todo de alegria

Subi Carregadores, Dionon Pires, Maestro Samuel e no final da Avenida eu já era Alzira, Ioiô, Galo, Padre, Gumercindo, Charles, Sorriso, Dona Flor...

III

Cantei com as águas do velho rio

Os baiões de Gildo, as baladas de Dayse, a poesia; a cantoria de Onaldo, Lano, Alex, João, a sanfona dos Morenos, de Vicente, Léo, Fabinho  

Fui Os Sombras, Jucier, os Cds de Manuelito  e o pop plural de Carlos Pinto

Icônico. Avatar de sol na goela, estrela na testa e escorpião cravado no umbigo, um pincel de amor e fúria.

Multifacetado me fiz transe, teatro, musical, desfile, festival, Ilha do Araxá,

Tropicalizei-me

Artimortal!

IV

No espelho do velho rio

Me derramei feito aquarela, água-tela...  

Me pintei de mistérios-mundos nas galáxias de Orlando, enigmático,

Nas múltiplas artes de Aparecido, sua engenhosidade nata, e nas molduras de Marlindo, plásticas... estéticas... cívicas... cintilante pedra, pluma e purpurina.

Pavão e Fênix desenhando caminhos.

Ponte-ei-me de ouro Nanete, Nenzinha, Martina Pinto, 7 de setembro, Lapinha e escola de Belas Artes.

Fui NAG, Jubec, A.R.T.E. na rua e no altar das grandes cenas, fui espetáculos a céu aberto!

Dancei, virei São Gonçalo, São João, Raio de Sol, manhãs...

Canção de ave canora na voz do Grupo Louvor.  

Como uma escultura de Núria

Fiz-me fibra, fio, nervura, tronco e plantei-me arte ante sua natureza viva,

Embelezei-me

Me fiz desenhos de pedra em calçadas ornamentais

Fiquei eclético e estampei muitas fachadas.

Tudo era eu ali, a estátua, o livro, o traçado das ruas, o sobrado, o busto de Jerônimo Pires e o ideal, a Vila Annete, o velho mercado público, o Cine Irapuã, o Teatro Santa Cecília, o casario e a caraibeira amarela da praça, a Flor de Belém.

 V

Rabisquei-me

Eu-lírico

E as letras me vestiram com sua túnica fina

Na vanguarda da Educação

Virei Palavra, Princesinha do Sertão  

Morada de Alípio e Zita

Colégios, faculdades, auditório, palácios...

Jardim de Rosa Maria, a sertaneja flor do lácio

Jardim de Lia, De Lourdes, Alaíde, Alicília, Odete, Maria Linda, Carolina, flores...

Germinei Ginásio Industrial, Alfedo Reis, Nossa Senhora do Patrocínio  

Me fiz o próprio retrato de Letras

E a saudade de Rita Neide  

Me fiz luz além do tempo

E iluminei professores e artistas, mentes e corações...

Um hino de Ariovaldo

Um outro de Wilminha

Tudo era amor àquele lugar.

VI

Na orla do velho rio

Recostei meu sentimento

E emergi Alto do Encanto, Canta-galo, cantoria

A poesia insistiu tanto que a alegria de viver me trasbordou naquele instante

Virei Dodora a belenear

Póetica e Sábia, pairei... 

E os meus sorrisos preencheram as largas ruas e os vazios que porventura esqueceram de escrever.

Eu fui todo coração ao ser

Dodora inteira mente... ao Recordar... ao Reviver...

E ao descer por todas as ruas senti como se deslizasse com minhas calças vermelhas e o meu casaco de general na voz de Chipila

Tornei-me plangência, nostalgia, serenata, boemia na voz de Júnior, Roberinho e Itamar

E tantos violões me compuseram que me pus a dedilhar a fonte nova da praça

Como uma emocional declamação, declaração de amor de Márcia.

VII

Nas paredes do velho rio

Fui Patrocínio, Menino Deus e Nossa Senhora de Belém

Violão de Edésio, livro de Alaíde de Roquete, sino de Maria Lina

Monsenhor Pires, Morazan ante o altar, novenário, noite dos ilhéus e dos filhos ausentes

E quando a fé quis minguar

Fui Capela do Deserto e me vi Patu, majestosa esfinge, com Edite e outras senhoras, resistentes  

Virei o sonho de Manoel Carpina e Ditão com o santo cruzeiro

À frente dos Penitentes avançando com o seu canto glorioso.

”Toda Belém eis aqui agora”.

 

VIII

Nas pedras do velho rio

Tornei-me Artífices

E a coragem da Velha Guarda,

Zefinha, Nezinho e Dulce, Socorro, Messias, Luzia, Maria,

E novamente Dona Patu

Mestra nesta engrenagem

Na alfazema de Paulinho me vesti de branco e reverenciei a obrigação sorrindo, sambando

Virei Dona Isaura, Pai Tonhe, Manoel Cordeiro, Leda, Eliseu

E uma reza contra quebranto de Joana Tereza...

IX

Nas entranhas do velho rio

Sentei nas altas pedras para ouvir de Abdias o trecho de histórias afogadas pelo tempo

Mergulhei águas profundas, nadei as correntezas mornas 

Virei peixe, luz, sereia, Copa Alta, Nego d’água

Virei lhas, balsa, Ibó, ponte

Riacho Pequeno, canoa, Celestino Nunes e Serra do Ouricuri

Brinquei às tuas margens até parar na feira, livre

Saberes da água, sabores da terra

Virei raízes, flores e frutos, girei na ciranda de uma roda d’água como o aroma de manga viajando ao redor do mundo.

X

Fui/voltei vôlei de Umberto

Partida de pés descalços na areia, quadras, campo de sal, jogos ao sol

E a voz de Pantu, som de esporte altivo e eternas musicalidades

Ecoando treinos, torneios, campeonatos,

Na voz de Didi narrei a pelada de domingo na grama da AABB e banhos quentes de piscina...

Kipa, Geraldo Pereira, Geraldão

Desporto que herdei para encantar Tamoios, Aimorés e encaminhar meu passe

Driblei o que era não sorte, talento e sina

Viajei, virei Toró, Igor, Luanderson e Sandro de Marina

Fui Timbira na partida sonhadora dessa juventude atlética.

XI

Me renovei às margens do velho rio

Linha, renda, sianinha,

Me teci, renascendo...

Ponteando emoções na estampa aberta, brotei sensibilidade à flor das mãos,

No relicário do antigo rio me transformei em Ediane, baú das miudezas belas, olho de apurada cor, traço de precisa forma, fui seus mimos, suas gentilezas e delicadezas d’alma...

Depois que floresci

Lancei-me redes n’água em virtualidade flutuante

Virei Ewerlane, voz mordente, marcante

E uma composição nova de Kinho.

Virei um vídeo novinho, viralizei

Meu corpo W.A.N.T.E.D., ballet das ruas, nada mais era que a dança nova, que o jeito-ritmo, requebrei quebrando muros para preencher espaços

Virei Cinema e segui A Trilha pela City Belém

Me encantei

Me costurei ciranda menina como boneca de pano, virei beleza, Iaponira

Virei Evilásia desfilando na avenida vestida de si, passo de frevo, passo de personagem, passagem de Paixão de Cristo, cabelos e autoestima ao vento...

Meio Pernambuco, meio Bahia

Movimentei-me capoeira, acarajé de Joyce, de Iansã

Fui Roniery, Ciro e o círculo de tradição

Tudo era palma da mão e olhar...

Virei vereda, bicho, Boiadeiro, templo e paisagem nas lentes de Manoel Lino

Caminhos, reflexos do mundo

Das fotos de Francisquinha às poses jovens de Cíntia, Isadora, Thaís

Fui uma fotografia feminina  

E nos cotidianos daquele sol

Me fiz performance, influencer, fluidez

Empoderei-me

Virei Emanuel, olho, ideia, pele e voz, me desatei  

Me revelei como uma das suas fotografias, registrando o corpo das tempo, a carne da vida, o inesperado e o inteligível, a ferida e a pétala. A nudez. O Eu.

XII

O sol deitou na pele do velho rio...  

Quando ao entardecer

Configurei-me nostalgia e solidão

Virei o antigo Cemitério

Meus braços suas torres; góticas?

Meus pés suas raízes de algaroba

Velho cruzeiro e portal.

Virei sabedoria

Príncipe do Patrimônio

Um herói com armadura de memórias

Virei Michel e os grandes vultos

Dinorá e os grandes feitos.  Lúcido... elegante...

Estou vivo!

Mas meus pensamentos são lembranças etéreas e vagueiam espectrais,

Como a erma Alma do Patrimônio

E ali sobre as pedras do antigo cemitério dormi nuvem e acordei voz cristalina,

Virei a canção e o gesto aceso, a expressão autêntica e única

Virei a voz deste lugar

Transmudei-me

Virei Nubinha,

Virei Estrela...

Virei Lua...

Virei Amor GIGANTE

E ainda com o eco de Nubinha em mim

Ali no cais do velho rio, eu menino pendurado na antiga castanhola, resistente obelisco,

Virei sonho,

Virei busca,

Virei barco,

Virei enfim Belém do São Francisco.

 

Tom Dunes

Belém do São Francisco, 02 de setembro de 2020

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